
Ora, depois da apresentação, queria referir a conversa que deu origem à ideia do blogue! Eram 2h da manhã, sítio: bairro alto, sentados numas escadinhas largas e sujas, entre três biólogos a conversa não podia desembocar senão nas grandes questões da vida, neste caso: qual a origem do homem moderno (Homo sapiens)?
E bom, a novidade por aqueles e estes dias, vai sendo a descoberta do papel crucial que um osso do crânio de que a maioria das pessoas nunca ouviu falar, o esfenóide, teve no surgimento do homem moderno a partir dos seus antepassados mais robustos e carrancudos (já explico o carrancudos!).
Então não é que, aparentemente, esse osso, que parece uma borboleta (ver imagem) e se situa na base do crânio, tem vindo a encurtar-se e a rodar, periodicamente, ao longo dos últimos milhões de anos (e continua a fazê-lo)! Como o esfenóide liga 17 dos 22 ossos do crânio, qualquer alteração na sua posição afecta toda a estrutura da caixa craniana. As rotações que vem sofrendo têm permitido uma retracção da face (a nossa face não se projecta para a frente como a do neandertal!) e a forma cada vez mais globular do crânio (mais espaço para um cérebro maior!).
Estima-se que a última rotação do esfenóide tenha ocorrido há 125 000 anos, dando origem ao homem moderno. Quando a próxima ocorrer (e aqui, bem ou mal, assume-se que um relógio genético/evolutivo imparável está em acção) teremos o Homo futurus :)
Para terminar, do mundo da ortodontia chega a possível evidência de que tal já esteja a acontecer: não pára de aumentar em todos os continentes a percentagem de pessoas com dentes desalinhados devido a problemas com o palato (o "céu da boca"), cuja estabilidade está ligada ao desenvolvimento, claro está, do esfenóide :)
3 comentários:
Parabéns pelo blogue e pelo texto. Sempre a aprender.
A.
Em relação a taxa evolutiva da rotação do esfenoide podias ser mais concreto e dar dados sobre a essa modificação? E o periodo em que se verifica a modificação é sincronizado com a especiação do genero homo?
Parece-me evidente que um osso que sustenta outros 17 do cranio seja muito importante no processo evolutivo das capacidades cognitivas e comunicativas do genero homo, mas nem só de cabeça vive o homem e portanto a minha caultela em aceitar esses resultados.
Já agora, há pressões evolutivas para que o fenomeno aconteça ou não? Se sim quais?
Beijos e abraços.
Pedro tens sempre muitas dúvidas... e ainda bem. Como te deves lembrar, vi este assunto abordado pela primeira vez num documentário da National Geographic. Juntamente com os artigos que consultei posteriormente, o que te posso dizer é o seguinte: a)A rotação do esfenóide tem-se verificado a intervalos de tempo cada vez mais curtos (a última, como referido, há 125 000 anos) e sim, coincide com o registo fóssil no que respeita à especiação dos hominóides (se quiseres mesmo datas específicas, que existem, tens de pesquisar); b)A alteração do ângulo esfenoidal foi um passo essencial para que o encéfalo crescesse, e essa é a grande tendência no género Homo, ou seja, neste exemplo específico de evolução, tudo girou em torno da cabeça mesmo! c)Não acho que o Homem moderno tenha surgido só porque o esfenóide resolveu rodar um pouco (apesar dessa ser uma condição necessária), e o meu palpite é que tenha havido uma pressão selectiva sim: uma combinação de desafios ambientais e competição entre as diversas formas.
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